Sem dinheiro no caixa, governo muda a lógica da produção cultural em Brasília
Acostumados a contar com o apoio financeiro do GDF na realização de eventos, produtores culturais estão tendo de buscar alternativas para tirar projetos do papel
Foto: Bruno Stuckert/ObritoNews

GDF deixou de investir nos eventos culturais por falta de recursos
O velho clichê de que todo mal pode render um bem maior encontra eco na crise financeira do governo do Distrito Federal. Com os cofres à míngua, o Executivo local fechou a mão para eventos que sempre contaram com generosos repasses de verbas públicas.
Mesmo sem querer, a gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB) pode ter inaugurado na política da Capital Federal uma lógica de financiamento considerada mais moderna, com a exigência do protagonismo da iniciativa privada: um desafio e tanto em uma cidade administrativa.
Sem condições de bancar eventos como o carnaval e o São João, como sempre fez, o GDF desorganizou a programação de produtores culturais, que tiveram de sair da inércia e procurar alternativas longe dos gabinetes do governo.
“Não tenho dúvida de que o setor da produção cultural de Brasília vinha dependendo excessivamente de dinheiro público”, sentencia o secretário de Cultura, Guilherme Reis. O momento, defende ele, é de “baratear processos e repensar valores”.
Carnaval
Este ano, de maneira inédita, o GDF não destinou um centavo para fazer valer o carnaval nas cidades. Nos últimos 13 anos, os gastos públicos com a festa tinham registrado um salto de 425%: o investimento pulou de R$ 1,2 milhão, em 2001, para R$ 6,3 milhões, em 2014.
A falta de grana para o carnaval provocou um prejuízo milionário às escolas de samba do DF, que estavam prontas, mas não puderam desfilar no Ceilambódromo. Por outro lado, as ruas da capital receberam um milhão de pessoas nos quatro dias de folia: um recorde.
Foto: Lula Lopes/Setur-DF

Carnaval foi outro evento que deixou de receber investimentos do GDF
“Não faz mais sentindo que o governo continue bancando esses eventos como antes”, sustenta o secretário-adjunto de Turismo, Jaime Recena. No entender dele, sobretudo em tempos de crise, o governo deve priorizar gastos em áreas como saúde e educação.
São João
Em agosto, o Maior São João do Cerrado, realizado há quase uma década no DF, também não contou com recursos do governo. Os produtores ameaçaram cancelar a festa, mas acabaram mantendo a programação. Mesmo com estrutura menor, o evento atraiu 100 mil pessoas.
“O que ocorreu este ano com o carnaval e o São João são exemplos claros de que os produtores culturais podem correr atrás de novas soluções”, comenta o presidente da Fecomércio-DF (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do DF), Adelmir Santana.
Foto: Éder Amaro
Natal
A ressalva feita por Santana diz respeito à falta de dinheiro do governo para a decoração natalina, como antecipou o Fato Online. “Aí também já passa a sensação de total abandono. É uma festa cristã, o Estado tinha de ser complacente”, argumenta.
No Palácio do Buriti, há uma clara tentativa de surfar no sucesso desses eventos que não receberam dinheiro público. A estratégia é reforçar a tese de que é possível tirar projetos do papel sem estender o chapéu ao governo e, assim, diminuir a histórica pressão por recursos.
Por outro lado, existe todo um cuidado para deixar claro que não se busca eliminar o apoio do GDF a eventos culturais. Longe disso, garantem os discursos. Guilherme Reis, o secretário de Cultura que também é produtor, fala em “libertação” ao tratar do assunto.
“É claro que se tivéssemos orçamento suficiente, apoiaríamos tudo. Essa ajuda é saudável, mas não significa que, por isso, tenha de haver tanta dependência. O governo tem outras carências que deveriam ser priorizadas”, comenta.
Jaime Recena, à frente do Turismo, emenda: “Estamos diante de uma mudança de pensamento. Os produtores de eventos terão de compreender que é preciso estabelecer uma nova relação com a iniciativa privada. É assim que funciona no mundo moderno”.
O São João também ficou sem recursos do GDF este ano
Foto: Beto Barata/ObritoNews/FatoOnline

Produtores culturais têm enfrentado dificuldades na captação de recursos
Dificuldades
Do lado de quem sempre precisou de verna pública para realizar eventos em Brasília, a avaliação é que essa mudança de lógica não é tão simples com o governo faz parecer, já que a iniciativa privada na capital não tem o hábito de investir em cultura.
A Lei de Incentivo à Cultura, em vigor desde abril de 2014, oferece benefícios fiscais a quem apoia projeto cultural no DF. Os produtores, no entanto, apontam falhas na legislação. Reclamam, por exemplo, da dificuldade de terem acesso às empresas cadastradas.
“Uma das coisas que mais pesa é não captarmos patrocínio das indústrias”, pontua o produtor cultural Kaká Guimarães. Segundo ele, para conseguir grana da iniciativa privada em Brasília não basta apresentar projeto de excelência. “Tem de ser bem relacionado”, acrescenta.
O presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana, defensor de uma menor participação do governo nos eventos, pondera que nem toda ideia seduz as empresas. “No caso da iluminação de Natal, por exemplo, qual seria o retorno econômico de patrocínio privado?”, questiona.
Ruptura
Há duas décadas produzindo eventos, Marta Carvalho reforça que sem recursos do GDF é, incontestavelmente, muito difícil tocar qualquer projeto cultural na cidade. “A verdade é que essa ruptura que estamos vendo foi muito forte”, analisa.
Para o economista Roberto Piscitelli, integrante do Cofecon (Conselho Federal de Economia), a postura de “governos assistencialistas” – em que, define ele, se permite uma maior liberação de “verbas populares” – facilitaram abusos e descontroles em patrocínios públicos.
Contratos de eventos culturais firmados entre 2011 e 2013 pelo GDF, no total de R$ 32 milhões, estão sendo investigados após uma auditoria da Controladoria-Geral do DF apontar indícios de irregularidades em shows promovidos por secretarias e administrações regionais.
Em ocasiões anteriores, o atual secretário de Cultura sublinhou que a lei brasileira facilita fraudes em valores de cachês e que os recorrentes atrasos nos pagamentos por parte do governo acabam incentivando cobranças superfaturadas.
Contestação
Em 2014, o Tribunal de Contas do DF questionou a festa de ano-novo na Esplanada dos Ministérios, que previa gastos de R$ 1,6 milhão. O argumento foi de que a contratação de atividades de lazer não poderia prejudicar pagamento de salários e obrigações contratuais, como se vislumbrava. De fato, o então governador Agnelo Queiroz (PT) deixou o Buriti sem pagar produtores culturais. A dívida milionária só deve ser quitada no ano que vem.
Embora alerte para os riscos na liberação desse tipo de verba, o economista Roberto Piscitelli acredita que os governos não podem cair em radicalismos. “É claro que, em algumas ocasiões, se justifica o suporte financeiro. Não precisa gastar milhões com uma árvore, mas o Natal sem luzes em Brasília será mais triste”, opina.
Foto: Éder Amaro

Eventos terão que captar recursos junto à iniciativa privada
Tv Fato
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http://fatoonline.com.br/conteudo/10695/...tural-em-brasilia?or=he-bra&p=de&i=1&v=1