Rotas perigosas
Um estudo inédito revela detalhes sobre acidentes com óbito no DF e dá soluções para reduzir a média de 400 mortes anuais nas vias da capital
Foto: Wellington Nemeth

Batida no Eixão, em 29 de janeiro: a rodovia está entre as líderes de ocorrências
Sábado à noite, primeiro fim de semana após o pagamento. Dia bom para tomar um chope e sair com os amigos. Não chove. No caminho de casa, um homem de 30 e poucos anos dirige seu carro a uma velocidade superior a 80 quilômetros por hora. Se o motorista estivesse atento a todo o contexto que envolve esse deslocamento, provavelmente tiraria o pé do acelerador. No universo das estatísticas, os fatores descritos são predominantes nas colisões com óbito ocorridas no Distrito Federal. O alerta vem de um estudo inédito, que ma-peou o perfil desse tipo de sinistro na capital do país. Bem detalhado, ele aponta dia, horário, local e velocidade dos veículos envolvidos nessas ocorrências, além de uma série de características das vítimas e dos infratores. Especialistas que acompanham diariamente esses desastres perceberam que há uma repetição notável de muitos endereços nesses casos. “Todo crime precisa de uma vítima, de um infrator e de um ambiente que propicie o delito”, explica Bruno Telles, presidente da Associação Brasileira de Criminalística (ABC) e um dos coordenadores da pesquisa. Com uma média de dez vítimas fatais por ano, o Eixão, oficialmente DF-002, figura entre as vias onde a morte é anunciada. Em menos de 24 horas, no último dia 29, ocorreram dois acidentes graves na rodovia, que atravessa as asas Sul e Norte da cidade. Em um deles, o condutor de um Toyota Hilux perdeu o controle da direção, na altura da quadra 105 Norte, e invadiu a pista contrária, batendo de frente em um Honda Fit. Embora os carros tenham sido destruídos, Ana Marcia Fonseca e José Luiz da Silva sobreviveram — um desfecho improvável em desastres com características similares.
Quem lida tecnicamente com o assunto é enfático em dizer que praticamente todos os acidentes de trânsito com morte poderiam ser evitados. Isso significa que, em 2012, ano usado como base para o estudo, 417 vidas não deveriam ter sido interrompidas sobre caminhos asfaltados do Distrito Federal. Tal número representa quase duas vezes as vítimas do incêndio na boate gaúcha Kiss, que, em janeiro de 2013, virou notícia em todo o mundo. O valor desse documento, cujos resultados foram concluídos no fim do ano passado, está no potencial que algumas medidas simples têm para impedir futuros desastres. Levantou-se, por exem-plo, a informação de que o trecho mais crítico dentro do quadrilátero da capital fica na BR-070, próximo do conjunto residencial Privê e da QNO, em Ceilândia, a cidade mais populosa do DF. Ali, muitos carros colidem quando motoristas se arriscam em retornos clandestinos para cruzar as duas pistas. Somente no período de análise dos peritos, houve dezessete mortes na rodovia, cinco delas num raio de apenas 2,6 quilômetros. Uma simples mureta de concreto no canteiro central teria inibido as manobras irregulares e poupado o sofrimento das famílias que ficaram sem os parentes. Além da BR-070, os estudiosos indicaram cinco pontos considerados de alto risco (veja o quadro acima). Entre eles, o viaduto que liga Taguatinga a Samambaia. Essa é uma pista de grande movimento, na qual os veículos costumam trafegar em velocidade acima da permitida (60 quilômetros por hora). Como não há fiscalização no local, os motoristas se sentem à vontade para pisar fundo. O exagero foi a causa principal dos cinco acidentes fatais no período de um ano. Barreiras eletrônicas poderiam ter coibido os excessos. “Me-didas como essa são capazes de reduzir em até 25% o número de óbitos”, alerta o perito Juliano Gomes, outro coordenador do estudo intitulado “Análise da criminologia ambiental dos sinistros de trânsito com vítima fatal no DF”.
Segundo a análise demonstra, o ambiente surge como um importante fator de risco. Mas são as atitudes de motoristas e pedestres que completam o triste cenário dos acidentes e permitem traçar um perfil-padrão para essas ocorrências. Por meio de dados objetivos, os peritos constataram que os homens, menos cautelosos ao volante, se envolvem mais em desastres. Geralmente, eles têm entre 30 e 40 anos e, momentos antes do acidente, consumiram álcool. No caso dos atropelamentos, nove em cada dez acidentes envolveram condutores do sexo masculino. Do lado das vítimas do choque entre carro e pedestre, diversas características se repetem: a maioria é do mesmo gênero (77%), está em idade produtiva, quase sempre sob o efeito de bebida (65%) e usa roupa escura na hora da colisão. Em grande parte das situações, os atropelados morrem de politraumatismo, já no hospital. No ma-pa cronológico desse tipo de sinistro, o encontro com a morte nas vias do DF ocorre, geralmente, numa quinta à noite, entre 18 e 20 horas, período que coincide com a volta do trabalho. Sem fazer a menor ideia disso, Daniel de Andrade, então com 34 anos, enquadrava-se perfeitamente no perfil de vítima por atropelamento quando tentou atravessar a BR-020. Era uma quinta, por volta das 18 horas. Ele tinha passado o dia pintando uma grade e bebido com uns amigos no posto em frente à rodovia antes de tentar cruzá-la. Quando fez isso, um Celta o acertou e fugiu. Andrade teve as pernas e a nuca fraturadas. Faleceu poucos minutos depois de chegar ao Hospital Regional de Sobradinho. “Se ele tivesse um lugar seguro para atravessar, não teria morrido”, lamenta Ilvan Oliveira, cunhado da vítima.
A observação atenta dos órgãos públicos e uma providência relativamente simples poderiam ter diminuído muito o risco de morte de Andrade. Aqui, os atropelamentos fatais ocorrem, comumente, próximo a pontos de ônibus, em rodovias onde não há passarelas. O estudo do DF mostra que praticamente não há atropelamentos com morte num perímetro de até 300 metros das travessias destinadas a pedestres. Vale ressaltar, também, que faltam educação e consciência aos cidadãos. Não basta instalar a passagem. É preciso mudar o comportamento dos pedestres, criando mecanismos, como grades e muretas, para impedir que cruzem a via nas áreas de risco. As mortes no Setor de Motéis, por exemplo, eram muito frequentes até a construção de uma alternativa para transpor, a pé, as pistas próximas. Essa medida, por si só, reduziu significativamente os desastres, mas não zerou esse tipo de acidente. Foi então que a engenharia de trânsito criou muretas para impossibilitar a travessia perigosa. Deu certo. Desde a conclusão da obra, não houve um único atropelamento na região. Em outro contexto, agora na BR-040, num trecho próximo à cidade de Santa Maria foram registrados quatro acidentes com vítima fatal apenas no primeiro semestre do ano-base para o estudo. A partir de julho, nenhuma morte desse tipo ocorreu por lá. Duas intervenções do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) explicam o efeito: a instalação de pardais e a redução da velocidade na pista para 60 quilômetros por hora.
Embora essas sejam ações rápidas e não muito onerosas, hoje há uma série de pontos ainda descobertos nas nossas vias. Parceiro no estudo sobre a criminologia dos sinistros do DF, o promotor Rodrigo Rosa, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, defende que o levantamento seja um norteador para a formulação de políticas públicas do novo governo. “Apontamos em minúcias onde, como e quando os acidentes acontecem. Além disso, propomos as medidas reparadoras para solucionar boa parte dos problemas em pontos críticos”, afirma Rosa. Ele pretende chamar as autoridades responsáveis para debater os dados, pois sustenta que esse estudo é o mais completo até hoje já realizado sobre acidentes no DF. O secretário de Mobilidade do Distrito Federal, Carlos Tomé, garante que já tem o levantamento em mãos e que as sugestões serão consideradas nas próximas medidas da secretaria. Em discurso na abertura dos trabalhos da Câmara Legislativa, no último dia 3, o governador Rodrigo Rollemberg prometeu retomar a campanha Paz no Trânsito, uma vedete da gestão de Cristovam Buarque.
O DF atualmente é cortado por 1 660 quilômetros de vias pavimentadas, cuja gestão diz respeito ao Detran, Dnit e DER. Estatísticas do primeiro órgão apontam uma discreta queda no número de acidentes de trânsito com morte nos últimos três anos. Em 2012, foram registrados, segundo o departamento, 393. Na temporada seguinte, houve menos ocorrências (362). E, até novembro do ano passado, eram 343 (os de dezembro ainda não foram divulgados). Embora as estatísticas sigam uma curva descendente, os especialistas alertam para o fato de que as mortes no trânsito permanecem altíssimas no Brasil. O país apresenta uma média de vinte casos por 100 000 habitantes. Em meados da década de 90, a capital chegou ao auge do mau exemplo, quando exibiu os dados mais alarmantes do território nacional. Naquela época, o índice de violência nas pistas motivou campanhas de educação e mudanças na rotina dos brasilienses, como o respeito incondicional à faixa de pedestres. A sangria no trânsito de Brasília e das cidades que a circundam já não é aquela de vinte anos atrás, mas ainda ceifa centenas de vidas todos os anos. Uma das teses que embasaram a pesquisa no DF foi citada por Letícia Marin e Marcos Queiroz no estudo “A atualidade dos acidentes de trânsito na era da velocidade: uma visão geral”. “Os acidentes de trânsito não ocorrem por acaso, mas são decorrentes de deficiências das vias, dos veículos e, principalmente, das falhas humanas”, alerta o documento, segundo o qual essas tragédias são “100% passíveis de prevenção”. Cabe, pois, lembrar que, em feriados prolongados, os números mais uma vez desfavorecem os motoristas. No Carnaval do ano passado, a folia acabou mais cedo para sete pessoas que morreram nas vias da capital federal. Antes de encarar as estradas próximas, vale conhecer melhor os pontos mais perigosos dessas rodovias, redobrar a atenção e fugir das estatísticas que podem destruir vidas — no asfalto e fora dele.
Responsável por uma colisão na BR-020, o açougueiro Valdemir Calado parou de beber e desistiu do volante
Foto: Michael Melo

Calado: ele vendeu o carro após acidente
Era 1 hora da madrugada de 15 de agosto do ano passado e o açougueiro Valdemir Calado, então com 25 anos, dirigia embriagado seu Fiat Uno. Antes do acidente que provocou, ele estava com amigos num bar em Planaltina (GO). Deu carona a um deles e voltava para casa quando bateu o carro ao fazer um retorno na BR-020. Por causa do efeito do álcool, não notou que outro veículo vinha em sua direção. Os dois automóveis voaram longe com o choque, mas ninguém teve ferimentos graves. Depois do sinistro, Calado conta que parou de beber. O trauma foi tão grande que ele preferiu vender seu Uno e rodar apenas de ônibus. “É um susto que não tem explicação. Por uma fração de segundo, poderia ter morrido e matado”, diz. Hoje, ele afirma ser o chato que não deixa que os amigos bebam antes de pegar o volante. O açougueiro também passou a frequentar os encontros bimestrais da Promotoria de Justiça de Delitos de Trânsito no Paranoá. Esse projeto foca a conscientização de quem está ao volante. Por meio de filmetes, músicas e conversas, os infratores refletem sobre os episódios, sempre guiados por um psicólogo. “O objetivo não é reforçar nenhum tipo de culpa ou martírio, mas evitar que esses acidentes voltem a acontecer”, diz o promotor Delson Ferro, à frente da iniciativa há cinco anos. A participação nesses encontros depende da Justiça e é determinada com base nos recursos de transação penal ou suspensão condicional do processo. Essa pena alternativa contempla principalmente três tipos de violação às leis: embriaguez na direção, condução de um veículo sem carteira de habilitação e lesão corporal culposa – desde que ela não tenha provocado óbito.
Ultrapassagem proibida mudou o destino de uma família
Foto: Michal Melo

Adailton e Sandra Correia na DF-290: o casal perdeu o seu bebê e a mãe dela
Em 9 de fevereiro de 2012, a doméstica Sandra Correia saiu cedo de casa com a família. Ela, grávida de seis meses, o marido, Adailton, o filho de 12 anos e a mãe tinham quatro horas de estrada pela frente. Ainda não eram 7 da manhã quando Sandra passou protetor solar no rosto, à espera de um dia quente. Sua lembrança seguinte é o filho com a camisa verde e branca ensanguentada, gritando que não conseguia enxergar. O menino havia fraturado as costelas e desenvolveu um estrabismo que lhe causa dores de cabeça até hoje. O marido bateu com a boca no volante e teve o calcanhar estilhaçado. Sandra foi imediatamente removida pelo Corpo de Bombeiros para o hospital mais próximo. Já era perto do meio-dia quando descobriu que seu bebê não havia sobrevivido. Somente no dia seguinte ela soube da perda da mãe, que também morreu na hora da batida. “Não tiveram coragem de me falar”, lembra, com a voz embargada. O acidente que desfalcou a família de Sandra ocorreu na DF-290, sentido Santo Antônio do Descoberto. Não fazia nem dez minutos que tinham saído de casa, no Condomínio São Francisco, quando um carro, fazendo uma ultrapassagem irregular, acertou o automóvel deles de frente. Nada ocorreu com o infrator, que teve apenas arranhões. Sandra e a família aguardam uma decisão da Justiça. Por enquanto, o autor do crime continua impune.
Colaboraram Arthur H. Herdy e Rafaela Lima
http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/rotas-perigosas-4213