Brasília terá parque tecnológico pioneiro
Universidade de Brasília desenvolveu estudo de viabilidade técnica e econômica para o projeto. Edital de Parceria Publico Privada deve ser publicado em até 90 dias
Um grandioso projeto de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação começa a tomar forma em Brasília e ambiciona abrir portas para o mundo. Elaborado pela Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) junto ao Governo do DF, o Parque Tecnológico Capital Digital (PTCD) promete unir três pilares de formação – governo, academia e empresas privadas – na criação de um pioneiro centro de tecnologia da informação. A Universidade de Brasília participa diretamente da empreitada, tendo papel decisivo na elaboração de estudo de viabilidade técnica e econômica, produzido pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) e Laboratório de Tecnologias de Tomada de Decisão (Latitude/UnB).
Uma vez definidas as bases pelos especialistas da UnB, o projeto do Parque Tecnológico foi aprovado em consulta e audiência públicas. O edital a ser elaborado deve ser publicado em até 90 dias. Através dele, será realizada a seleção do parceiro privado para a formação de uma Parceria Público Privada (PPP), seguida da constituição de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), modelo econômico adotado para viabilizar a infraestrutura de engenharia e tecnologia a serem disponibilizadas às empresas que se instalarem no parque. O projeto foi discutido em reunião na Reitoria, na terça-feira, 24, entre o reitor José Geraldo de Sousa Junior e o diretor de Prospecção e Novos Empreendimentos da Terracap, José Humberto Matias de Paula.
“A UnB já vem participando do planejamento do parque há muitos anos e esteve presente na forma de elaboração desse estudo pré-implantação. Logo virá o formato do edital para a seleção de uma entidade gestora. São as premissas básicas anteriores ao processo de implementação real”, explica o coordenador geral do plano de viabilidade junto ao CDT e do Latitude, Rafael Timóteo de Sousa.
Professor de Engenharia Elétrica, Rafael ressalta a pluralidade do estudo de viabilidade, que contou com integrantes de Engenharia de Redes, Ciência da Computação, Ciência da Informação, Economia, Direito e Administração. Em seis meses de trabalho, 30 pesquisadores deram sua contribuição, a maioria deles professores da pós-graduação. “Com base nas obrigações, necessidades e serviços detectados, fizemos uma estimativa de quanto será investido, quais os gastos e a projeção de quanto a sociedade vai receber em troca”, afirma Rafael.
O professor resume o papel da entidade gestora: “Essa SPE detém deveres quanto à urbanística da área, o que inclui calçadas, estacionamentos, prédios, rede elétrica, internet, infraestrutura computacional, entre outros. Em contrapartida, as empresas interessadas em se instalar no Parque Tecnológico Capital Digital vão pagar por esses serviços”.
José Humberto, da Terracap, diz que o GDF está atraindo parceiros com base nos pressupostos que a UnB forneceu a respeito de custos, receitas e rentabilidade. "Essas informações servirão de base para uma ação de vanguarda, mas ao mesmo tempo com os pés no chão", explica. “Acredito perfeitamente na viabilidade do projeto justamente porque será uma PPP”, admite Rafael Timóteo de Sousa, com otimismo.
Até o início de 2013, o GDF pretende ter assinado todos os contratos da PPP. As entidades envolvidas acreditam que o desenvolvimento pleno do Parque Tecnológico Capital Digital se dará ao longo de 35 anos. Contudo, CDT e Laboratório Latitude estimam que o parque já estará em atividade dentro de um período menor, que varia entre nove e 15 anos, a depender da velocidade que a própria SPE entender como viável.
DESCENTRALIZAÇÃO - “A parceria da Terracap com a UnB serve de base para as etapas que estão por vir, partindo já do pressuposto que parte do Parque já esboça suas primeiras obras. A Universidade cumpre papel importantíssimo de pensadora das ações, servindo à consolidação do discurso do próprio governador, que pretende confirmar a vocação de Brasília e da UnB como polo de inovação tecnológica”, descreveu o reitor José Geraldo de Sousa Junior.
José Humberto de Paula define o projeto como “o mais estrutural e estruturante” da capital federal. Embora aponte as mesmas vocações, pondera: “O desenvolvimento da região metropolitana como um todo é fundamental. A capital se desenvolveu nos últimos 50 anos no Plano Piloto, porém se faz necessária a desconcentração desse desenvolvimento para as regiões em torno”.
PRIMEIRA ETAPA – Nos primeiros momentos de implantação, o estudo técnico-econômico promovido pela UnB determinou qual era o tamanho mínimo do Parque Tecnológico, de forma que reunisse uma musculatura capaz de concorrer em nível local, estadual e, em médio prazo, também internacional. Sob estudos de mercado e metodologia da UnB, decidiu-se pela implantação inicial de 300 m², o que significa 17% da área total escolhida, de 123 hectares (1.200.000 m²).
O primeiro investimento prevê quase R$ 1,1 bilhão por parte da Terracap e outros R$ 243 milhões vindos da entidade gestora aprovada no edital. Nos três anos seguintes, o governo se abstém do investimento, que passa a ser realizado inteiramente por meio da PPP. O investimento final realizado pela Terracap gira em torno de 47%, frente a 53% do setor privado.
Trata-se de um modelo de parque de terceira geração, segundo define o GDF. José Humberto de Paula explica: “Na prática, o termo significa que, embora exista um apoio consistente de financiamento público na parte de infraestrutura, trata-se essencialmente de uma produção de conhecimento que atrairá empresas de ponta da área tecnológica”.
Ao final do projeto, a previsão é de 1.200 empresas implantadas no parque, entre aquelas classificadas como micro e pequenas empresas (712), empresas de médio porte (340), médias e grandes (141) e grandes (37). “Empresas gigantescas, como Intel e Microsoft, já demonstraram interesse. Mais que isso, contudo, há o mercado de Brasília, cuja força serviria de base seminal”, observa José Humberto.
O estudo do CDT e Latitude estima que existam hoje 700 empresas do setor de tecnologia da informação e comunicação no Distrito Federal, cuja atuação promove 30 mil empregos. O setor movimenta US$ 3 bilhões por ano e representa 3,5% do PIB do DF. “Não garantimos que será a totalidade dessas empresas que vai se interessar no deslocamento para o PTCD, é verdade, mas o parque criaria uma sinergia que tornaria muito interessante para elas a integração”, diz Rafael Timóteo de Sousa.
CAPITAL HUMANO – A chegada de tamanha empreitada pressupõe uma criação expressiva de vínculos empregatícios. O projeto pode viabilizar a criação de 25 mil empregos diretos e outros 45 mil empregados de forma indireta. “Na realidade, o ideal seria termos cerca de 15 mil técnicos até 2015, incluindo gente de graduação, mestrado e doutorado da UnB. Infelizmente, fica claro que não há condições ainda de essa mão de obra ser produzida com a qualidade e rapidez necessária, mas vamos trabalhar junto à Universidade para fazer nosso melhor, além de importar profissionais do exterior”, diz José Humberto de Paula.
“Basicamente, a totalidade de nossos estudantes dos cursos correlatos – de Engenharia Elétrica a Economia - teriam onde trabalhar e ainda faltaria contingente”, projeta Rafael de Sousa, entre feliz pela perspectiva de ofertas de trabalho no futuro e apreensivo devido às dificuldades presentes. “De qualquer forma, tenho certeza de que um centro de inovação científica tão imenso seria decisivo na atualização de mestrados, doutorados e especializações da UnB. Tudo que se refere a pesquisas nessa área terá no Parque Tecnológico Capital Digital uma fonte e um destinatário quase certos”, acrescenta.
Neste ínterim, o diretor da Terracap abre uma perspectiva mais aberta da área de tecnologia de informação: o mercado no Brasil cresceu 61% entre 2009 e 2011, ano em que US$ 96 bilhões foram movimentados na área, configurando uma alta de 13% em relação a 2010 e estabelecendo o país como o sexto maior mercado de tecnologia da informação do mundo.
“Hoje há mais de 1 milhão de trabalhadores no setor e, no período de 10 anos, chegaremos a representar 6,5% do PIB nacional. No Brasil, contudo, há dificuldade de relação do mercado com a própria academia, a necessidade de produção de mão de obra é enorme e nem sempre se tem conhecimento quanto a esse potencial”, explica José Humberto de Paula.
“O que a gente tem a oferecer é a inteligência em ação, que vamos desenvolvendo concomitantemente ao Parque Tecnológico”, resume o reitor José Geraldo de Sousa. “Essa parceria com a Universidade de Brasília tem de ser mantida no sentido de sempre garantir o papel da academia no desenvolvimento pleno de um parque pioneiro”, conclui José Humberto de Paula.
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